top of page

A Bondade que Não Nasce em Nós: Lições de Marcos 10:18 no Cotidiano

Atualizado: 26 de dez. de 2025


Poema que inspirou este artigo


 Lágrimas


Sob uma estrutura de concreto

Com pele pálida e tremor na mão

Ela me tocou em frente a um balcão

Sem rodear com discurso direto:

Moça, me dá um pedaço deste pão.


Eu que não comia há muitas horas

E sem saldo no cartão benefício

Cruelmente ignorei o sacrifício

Que quitou inúmeras penhoras

De almas rumo ao precipício.


Dentre estas a minha própria

Imperfeita e incapaz de ser boa

"Bondade humana" não vem à toa

Vem quase sempre com vanglória

Sem se importar com quem se mágoa


Não fosse um mediador entre nós

Eu não teria sentido vergonha de mim

E lembrado do sangue carmesim

E silenciado meu ego feroz

E visto as lágrimas em seu rosto enfim


Já derramei muitas em choro de dor

E molharam meus ombros as alheias

Mas nenhuma me fez sentir nas veias

O coser do fardo da falta de amor

Em fios de fome e de desprezo em teias


Entreguei o que paguei sem degustar

Não por haver bondade natural em mim

Mas, pela bondade de Deus sem fim

Saímos nós duas afinal a desfrutar

Da presença perdida lá no jardim



Por Edilaine Patrícia Leoncio


Coleção Reflexões do Caminho – Experiência real em uma interação com uma jovem desabrigada em uma lanchonete de um terminal de ônibus.


Introdução


Vivemos em um tempo em que a palavra bondade é frequentemente associada a gestos públicos, discursos bem-intencionados ou ações que rendem reconhecimento. No entanto, a experiência cotidiana — especialmente aquela que nos confronta fora do conforto — revela uma verdade mais profunda e, por vezes, desconcertante: a bondade genuína não nasce naturalmente do ser humano.

Essa verdade ecoa nas palavras de Jesus em Marcos 10:18:


“Por que você me chama bom? Ninguém é bom, a não ser um, que é Deus.”

Jesus não está negando a possibilidade de boas ações humanas, mas está expondo a fonte verdadeira da bondade. Ele desloca o foco do mérito humano para a essência divina. Toda bondade autêntica procede de Deus — e não do ego, da culpa social ou da autopromoção.


Quando o cotidiano nos revela quem somos


O poema Lágrimas nasce de uma experiência real e comum: uma interação breve, desconfortável e profundamente reveladora em um espaço público. Um pedido simples — “Moça, me dá um pedaço deste pão” — torna-se um espelho da alma.

Não há romantização da pobreza, nem heroísmo instantâneo. Pelo contrário, há honestidade crua: fome, limitação financeira, cansaço, ego, indiferença inicial. O texto expõe algo que muitos silenciam — a incapacidade humana de ser boa por si mesma.

Essa constatação dialoga diretamente com o ensino de Jesus. A bondade humana, quando existe, quase sempre vem misturada:


  • com vanglória,

  • com obrigação moral,

  • com desejo de parecer justo,

  • ou com alívio da própria consciência.


O poema afirma com lucidez:

“Bondade humana não vem à toa / Vem quase sempre com vanglória”.

O mediador que nos desperta


O ponto de virada não acontece por compaixão espontânea, mas pela ação de um mediador. A consciência é despertada não pela dor alheia apenas, mas pela lembrança do sangue carmesim — uma referência clara ao sacrifício de Cristo.

Aqui, o poema toca no coração do evangelho: sem Cristo, não há arrependimento verdadeiro. É Ele quem interrompe o ego feroz, quem gera vergonha santa, quem abre os olhos para as lágrimas que antes eram invisíveis.

Assim como em Marcos 10, Jesus desmonta a ilusão da autossuficiência moral. Ele nos mostra que:


  • não somos bons por natureza;

  • nossas ações não nos justificam;

  • dependemos integralmente da graça.


Outros exemplos da bondade de Deus na Bíblia


A Escritura confirma, repetidas vezes, que a bondade não nasce no homem, mas procede de Deus:


  • O maná no deserto (Êxodo 16): o povo murmurava, mas Deus alimentava.

  • Davi poupando Saul (1 Samuel 24): não por mérito de Saul, mas por temor a Deus.

  • A mulher adúltera (João 8): ninguém era bom o suficiente para apedrejar, e só Cristo era bom o suficiente para perdoar.

  • O bom samaritano (Lucas 10): a bondade não veio da religião, mas da misericórdia que ultrapassa fronteiras.


Em todos esses relatos, a bondade não nasce do homem — ela desce do céu.


Restauradas no caminho


O gesto final do poema não é glorificado como altruísmo exemplar. Ele é reconhecido pelo que realmente é: fruto da bondade de Deus agindo apesar da limitação humana.

“Não por haver bondade natural em mim / Mas, pela bondade de Deus sem fim”.

Há restauração mútua. Duas pessoas saem transformadas. O cenário comum se torna espaço sagrado. O cotidiano se revela como oficina de Deus — onde Ele corrige, ensina e reconstrói.

Conclusão: é no cotidiano que Deus nos transforma e nos corrige.



Comentários


bottom of page