A Bondade que Não Nasce em Nós: Lições de Marcos 10:18 no Cotidiano
- Edilaine Patrícia Leoncio
- 15 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 26 de dez. de 2025
Poema que inspirou este artigo
Lágrimas
Sob uma estrutura de concreto
Com pele pálida e tremor na mão
Ela me tocou em frente a um balcão
Sem rodear com discurso direto:
Moça, me dá um pedaço deste pão.
Eu que não comia há muitas horas
E sem saldo no cartão benefício
Cruelmente ignorei o sacrifício
Que quitou inúmeras penhoras
De almas rumo ao precipício.
Dentre estas a minha própria
Imperfeita e incapaz de ser boa
"Bondade humana" não vem à toa
Vem quase sempre com vanglória
Sem se importar com quem se mágoa
Não fosse um mediador entre nós
Eu não teria sentido vergonha de mim
E lembrado do sangue carmesim
E silenciado meu ego feroz
E visto as lágrimas em seu rosto enfim
Já derramei muitas em choro de dor
E molharam meus ombros as alheias
Mas nenhuma me fez sentir nas veias
O coser do fardo da falta de amor
Em fios de fome e de desprezo em teias
Entreguei o que paguei sem degustar
Não por haver bondade natural em mim
Mas, pela bondade de Deus sem fim
Saímos nós duas afinal a desfrutar
Da presença perdida lá no jardim
Por Edilaine Patrícia Leoncio
Coleção Reflexões do Caminho – Experiência real em uma interação com uma jovem desabrigada em uma lanchonete de um terminal de ônibus.
Introdução
Vivemos em um tempo em que a palavra bondade é frequentemente associada a gestos públicos, discursos bem-intencionados ou ações que rendem reconhecimento. No entanto, a experiência cotidiana — especialmente aquela que nos confronta fora do conforto — revela uma verdade mais profunda e, por vezes, desconcertante: a bondade genuína não nasce naturalmente do ser humano.
Essa verdade ecoa nas palavras de Jesus em Marcos 10:18:
“Por que você me chama bom? Ninguém é bom, a não ser um, que é Deus.”
Jesus não está negando a possibilidade de boas ações humanas, mas está expondo a fonte verdadeira da bondade. Ele desloca o foco do mérito humano para a essência divina. Toda bondade autêntica procede de Deus — e não do ego, da culpa social ou da autopromoção.
Quando o cotidiano nos revela quem somos
O poema Lágrimas nasce de uma experiência real e comum: uma interação breve, desconfortável e profundamente reveladora em um espaço público. Um pedido simples — “Moça, me dá um pedaço deste pão” — torna-se um espelho da alma.
Não há romantização da pobreza, nem heroísmo instantâneo. Pelo contrário, há honestidade crua: fome, limitação financeira, cansaço, ego, indiferença inicial. O texto expõe algo que muitos silenciam — a incapacidade humana de ser boa por si mesma.
Essa constatação dialoga diretamente com o ensino de Jesus. A bondade humana, quando existe, quase sempre vem misturada:
com vanglória,
com obrigação moral,
com desejo de parecer justo,
ou com alívio da própria consciência.
O poema afirma com lucidez:
“Bondade humana não vem à toa / Vem quase sempre com vanglória”.
O mediador que nos desperta
O ponto de virada não acontece por compaixão espontânea, mas pela ação de um mediador. A consciência é despertada não pela dor alheia apenas, mas pela lembrança do sangue carmesim — uma referência clara ao sacrifício de Cristo.
Aqui, o poema toca no coração do evangelho: sem Cristo, não há arrependimento verdadeiro. É Ele quem interrompe o ego feroz, quem gera vergonha santa, quem abre os olhos para as lágrimas que antes eram invisíveis.
Assim como em Marcos 10, Jesus desmonta a ilusão da autossuficiência moral. Ele nos mostra que:
não somos bons por natureza;
nossas ações não nos justificam;
dependemos integralmente da graça.
Outros exemplos da bondade de Deus na Bíblia
A Escritura confirma, repetidas vezes, que a bondade não nasce no homem, mas procede de Deus:
O maná no deserto (Êxodo 16): o povo murmurava, mas Deus alimentava.
Davi poupando Saul (1 Samuel 24): não por mérito de Saul, mas por temor a Deus.
A mulher adúltera (João 8): ninguém era bom o suficiente para apedrejar, e só Cristo era bom o suficiente para perdoar.
O bom samaritano (Lucas 10): a bondade não veio da religião, mas da misericórdia que ultrapassa fronteiras.
Em todos esses relatos, a bondade não nasce do homem — ela desce do céu.
Restauradas no caminho
O gesto final do poema não é glorificado como altruísmo exemplar. Ele é reconhecido pelo que realmente é: fruto da bondade de Deus agindo apesar da limitação humana.
“Não por haver bondade natural em mim / Mas, pela bondade de Deus sem fim”.
Há restauração mútua. Duas pessoas saem transformadas. O cenário comum se torna espaço sagrado. O cotidiano se revela como oficina de Deus — onde Ele corrige, ensina e reconstrói.
Conclusão: é no cotidiano que Deus nos transforma e nos corrige.


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