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Fugacidade

Atualizado: 16 de jan.

Há experiências humanas que resistem à objetividade. Não cabem em números, diagnósticos ou idades. São dores que atravessam o tempo e se transformam em memória viva, ensinamento silencioso e, para muitos, em fé amadurecida pela ausência.

Falar sobre elas nunca é simples. Mas é necessário.


O poema “Fugacidade” nasce desse lugar sensível: do encontro entre duas histórias interrompidas pela mesma doença, em tempos diferentes, mas unidas por uma dor comum — e por uma esperança que não se extinguiu com a despedida.


Isabel Veloso, influenciadora brasileira, partiu aos 19 anos. Elaine Cristina Leôncio, aos 48. Duas idades. Dois ciclos. Um mesmo linfoma. Duas flores arrancadas, mas jamais apagadas.


Antes de qualquer reflexão, o poema precisa ser lido. Ele é o coração deste texto.



FUGACIDADE

É desafiador tornar conciso

Um relato de tal natureza

Venho falar da fugacidade

Com a qual o tempo preciso

Arrasta consigo a beleza



A beleza vinda dos olhares

Dos sorrisos, dos abraços

A beleza das ideias

Na dor que marca os lares

O adeus de quem se tem laços


Uma flor murchada aos dezenove

Lembra a dor de outra flor

Que exalou por mais tempo

Somando a este mais vinte e nove

Foi arrancada pela mesma dor


Para as outras flores do jardim

Fica a visão do espaço vazio

Ao reconhecer-se como flor de corte

Questiona-se o próprio fim

Se será replantada à beira do rio


E em solo e cultivo diferente

Elaine e Isabel com o mesmo linfoma

Tiveram sonhos e planos encerrados

Mas, mantiveram o desejo ardente

Da esperança que a muitos soma...


... a morte da brevidade

E o nascer da eternidade


Por: Edilaine Patrícia Leoncio



Flores, tempo e ausência


A metáfora das flores atravessa todo o poema e revela uma verdade difícil de aceitar: a vida não é medida apenas pela duração, mas pela intensidade com que se doa.

Uma flor que murcha cedo ainda é flor. Uma flor que permanece mais tempo ainda sente a mesma dor ao ser arrancada.


A fugacidade não diminui o valor da existência — ela revela sua preciosidade. Cada olhar, sorriso, abraço e ideia mencionados no poema são marcas deixadas em quem ficou.


O vazio que ensina quem permanece


Quando uma flor é retirada do jardim, o espaço vazio se torna visível. O poema reconhece esse vazio não apenas como ausência, mas como espelho. Ele nos obriga a refletir sobre nossa própria finitude, nossos próprios limites e as perguntas inevitáveis sobre o fim. Essa consciência dói. Mas também desperta.

Quem permanece passa a viver de forma mais atenta, mais humana, mais sensível ao tempo que escorre silenciosamente entre os dias.


Quando a esperança resiste à interrupção


Mesmo com sonhos encerrados, o poema aponta para algo que não foi arrancado: a esperança. Elaine e Isabel, em solos diferentes, enfrentaram a mesma doença mantendo um desejo ardente de acreditar.

Essa esperança não nega a dor. Ela a atravessa. E transforma a despedida em semente.


Da brevidade à eternidade


O verso final não romantiza a morte — ele ressignifica o tempo. A fugacidade deixa de ser apenas perda e se torna passagem. Para quem crê, para quem ama, para quem sente profundamente, a vida não se encerra na despedida. Fica o amor. Fica a memória. Fica a flor que, de alguma forma, continua a florescer.



Nota da autora: Minha visão de mundo passa pelas Escrituras Sagradas (Bíblia), porém o texto de hoje limitei a experiência pessoal e a empatia, pois sei que o amor é a base de toda a Escritura. Deixo apenas uma referência:

Assim, permanecem agora estes três: a fé, a esperança e o amor. O maior deles, porém, é o amor. 1Co 13.13

 

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