Fugacidade
- Edilaine Patrícia Leoncio
- 12 de jan.
- 3 min de leitura
Atualizado: 16 de jan.
Há experiências humanas que resistem à objetividade. Não cabem em números, diagnósticos ou idades. São dores que atravessam o tempo e se transformam em memória viva, ensinamento silencioso e, para muitos, em fé amadurecida pela ausência.
Falar sobre elas nunca é simples. Mas é necessário.
O poema “Fugacidade” nasce desse lugar sensível: do encontro entre duas histórias interrompidas pela mesma doença, em tempos diferentes, mas unidas por uma dor comum — e por uma esperança que não se extinguiu com a despedida.
Isabel Veloso, influenciadora brasileira, partiu aos 19 anos. Elaine Cristina Leôncio, aos 48. Duas idades. Dois ciclos. Um mesmo linfoma. Duas flores arrancadas, mas jamais apagadas.
Antes de qualquer reflexão, o poema precisa ser lido. Ele é o coração deste texto.
FUGACIDADE
É desafiador tornar conciso
Um relato de tal natureza
Venho falar da fugacidade
Com a qual o tempo preciso
Arrasta consigo a beleza
A beleza vinda dos olhares
Dos sorrisos, dos abraços
A beleza das ideias
Na dor que marca os lares
O adeus de quem se tem laços
Uma flor murchada aos dezenove
Lembra a dor de outra flor
Que exalou por mais tempo
Somando a este mais vinte e nove
Foi arrancada pela mesma dor
Para as outras flores do jardim
Fica a visão do espaço vazio
Ao reconhecer-se como flor de corte
Questiona-se o próprio fim
Se será replantada à beira do rio
E em solo e cultivo diferente
Elaine e Isabel com o mesmo linfoma
Tiveram sonhos e planos encerrados
Mas, mantiveram o desejo ardente
Da esperança que a muitos soma...
... a morte da brevidade
E o nascer da eternidade
Por: Edilaine Patrícia Leoncio
Flores, tempo e ausência
A metáfora das flores atravessa todo o poema e revela uma verdade difícil de aceitar: a vida não é medida apenas pela duração, mas pela intensidade com que se doa.
Uma flor que murcha cedo ainda é flor. Uma flor que permanece mais tempo ainda sente a mesma dor ao ser arrancada.
A fugacidade não diminui o valor da existência — ela revela sua preciosidade. Cada olhar, sorriso, abraço e ideia mencionados no poema são marcas deixadas em quem ficou.
O vazio que ensina quem permanece
Quando uma flor é retirada do jardim, o espaço vazio se torna visível. O poema reconhece esse vazio não apenas como ausência, mas como espelho. Ele nos obriga a refletir sobre nossa própria finitude, nossos próprios limites e as perguntas inevitáveis sobre o fim. Essa consciência dói. Mas também desperta.
Quem permanece passa a viver de forma mais atenta, mais humana, mais sensível ao tempo que escorre silenciosamente entre os dias.
Quando a esperança resiste à interrupção
Mesmo com sonhos encerrados, o poema aponta para algo que não foi arrancado: a esperança. Elaine e Isabel, em solos diferentes, enfrentaram a mesma doença mantendo um desejo ardente de acreditar.
Essa esperança não nega a dor. Ela a atravessa. E transforma a despedida em semente.
Da brevidade à eternidade
O verso final não romantiza a morte — ele ressignifica o tempo. A fugacidade deixa de ser apenas perda e se torna passagem. Para quem crê, para quem ama, para quem sente profundamente, a vida não se encerra na despedida. Fica o amor. Fica a memória. Fica a flor que, de alguma forma, continua a florescer.
Nota da autora: Minha visão de mundo passa pelas Escrituras Sagradas (Bíblia), porém o texto de hoje limitei a experiência pessoal e a empatia, pois sei que o amor é a base de toda a Escritura. Deixo apenas uma referência:
Assim, permanecem agora estes três: a fé, a esperança e o amor. O maior deles, porém, é o amor. 1Co 13.13



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